Parece que um canivete rasga meu peito cada vez que reprimo o que sinto por você. Parece exagero, eu sei, e talvez seja isso que manda todo mundo embora - o exagero. Não quero te tornar parte dos meus traumas, dessa vez não. Quero que tu seja uma memória boa, turbilhão de sensações gostosas que passaram pela minha vida e deixaram muito mais do que saudade. Nada que venha depois disso vai ser capaz de apagar sua presença aqui, ainda que breve, ainda que rasa. As notas arranhadas num violão que agora não lembro a cor, tua voz meio rouca e mansa enquanto lá fora rolava uma garoa fina. Tua cabeça encostada na minha enquanto tocava Soulstripper e eu acompanhava, ora através da letra, ora através de um suspiro que substituía um pedido de quem sabia que você iria embora, mas queria que ficasse, queria que cantasse mais. Tu, que sempre foi bom com palavras e gestos, bom com sorrisos e bom em ensinar, não me ensinou a sentir menos. Graças a isso, enquanto você canta Soulstripper lembrando dela, eu canto Soulstripper e lembro de você.
Eu queria que você soubesse.
